Lula: o que mudou no Brasil, o que foi prometido e o que ainda precisa ser concluído
Uma retrospectiva dos últimos anos de governo, sob a visão de quem viu os resultados, lembra das promessas de 2022 e os desafios que permanecem
Fazer um balanço de governo exige mais do que escolher entre elogios ou críticas. É preciso olhar para aquilo que foi prometido, verificar o que efetivamente saiu do papel e reconhecer também o que ainda está em andamento ou não foi concluído.
Desde janeiro de 2023, o terceiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva recolocou no centro da agenda federal programas sociais, investimentos públicos, valorização do salário mínimo, políticas de redução da pobreza, habitação, educação, saúde e meio ambiente.
Mas o período também mostrou que entre anunciar uma política e entregar seus resultados existe um caminho que depende do orçamento, do Congresso Nacional, dos estados e municípios e da capacidade de execução do próprio governo.
Por isso, esta retrospectiva procura separar promessas, entregas e tarefas que ainda precisam de continuidade.
2022, o ponto de partida
Na campanha presidencial de 2022, Lula apresentou uma plataforma que tinha como principais eixos a reconstrução de políticas sociais, combate à fome e à pobreza, recuperação da economia e do emprego, valorização do salário mínimo, retomada de investimentos públicos, fortalecimento do SUS e da educação, retomada do Minha Casa Minha Vida, proteção ambiental e ampliação do diálogo institucional.
O programa também previa uma reforma tributária, mudanças na política econômica, fortalecimento dos serviços públicos e medidas voltadas à segurança, infraestrutura e desenvolvimento regional.
De acordo com as promessas apresentadas por Lula durante a eleição, como por exemplo: o compromisso de manter o Bolsa Família em pelo menos R$ 600, acrescentando R$ 150 por criança de até seis anos, além da promessa de aumento real do salário mínimo todos os anos. É a partir desses pontos de partida que podemos avaliar o que aconteceu.
1. Bolsa Família: promessa que virou política permanente
Uma das primeiras medidas do governo foi recriar o Bolsa Família em um novo formato. O programa passou a garantir valor mínimo de R$ 600 por família e acrescentou benefícios conforme a composição familiar. O governo também retomou mecanismos de acompanhamento relacionados à educação e à saúde.
Em 2024, mais de 20,86 milhões de famílias receberam o benefício, com repasses que chegaram a R$ 168,3 bilhões naquele ano.
Aqui, portanto, existe uma das promessas de campanha que pode ser considerada cumprida e incorporada à política social do governo.
Mas a questão que permanece é outra: como manter uma política de transferência de renda sem criar dependência permanente e, ao mesmo tempo, ampliar emprego, qualificação profissional e renda?
Esse é um desafio para os próximos anos.
2. Salário mínimo: retomada da valorização real
Outra promessa importante era voltar a aumentar o salário mínimo acima da inflação.
O governo retomou uma política de valorização real, vinculando o reajuste à inflação e ao crescimento econômico dentro das regras estabelecidas.
O resultado não é apenas simbólico. O salário mínimo influencia aposentadorias, benefícios previdenciários, BPC e uma parcela significativa da renda das famílias brasileiras.
O desafio agora é manter essa valorização sem perder de vista inflação, produtividade, emprego e equilíbrio das contas públicas.
3. Emprego: um dos indicadores que mais mudou
O mercado de trabalho apresentou melhora significativa durante o período.
Segundo o IBGE, a taxa anual de desemprego caiu para 5,6% em 2025, o menor nível da série histórica iniciada em 2012.
A população ocupada chegou a 103 milhões de pessoas, também um recorde da série.
São números importantes porque emprego tem efeito direto sobre a vida das famílias: significa renda, consumo, contribuição previdenciária e maior autonomia financeira.
Mas também aqui é preciso olhar além do número do desemprego.
O Brasil ainda precisa avançar na qualidade das ocupações, na redução da informalidade, na produtividade e na melhoria dos salários.
4. Economia: crescimento maior, mas com desafios fiscais
O PIB brasileiro cresceu 2,3% em 2025, segundo o IBGE, depois de também apresentar crescimento nos anos anteriores. O PIB chegou a R$ 12,7 trilhões em valores correntes.
Isso mostra uma economia que conseguiu crescer e gerar empregos.
Mas existe um ponto que não pode ser ignorado: crescimento econômico precisa vir acompanhado de responsabilidade fiscal.
O governo estabeleceu metas fiscais e criou o chamado Regime Fiscal Sustentável. Ao mesmo tempo, houve críticas e debates sobre o ritmo de crescimento das despesas e a capacidade de cumprir as metas.
Portanto, o desafio para a continuidade é equilibrar três coisas:
crescimento + investimento + responsabilidade nas contas públicas.
5. Minha Casa Minha Vida voltou
O Minha Casa Minha Vida foi outra promessa de campanha retomada.
O programa voltou em 2023 e incorporou mudanças para ampliar o acesso das famílias de menor renda à habitação.
Segundo dados do governo, mais de 21 mil moradias que estavam paralisadas ou em ritmo lento foram concluídas e entregues, beneficiando cerca de 80 mil pessoas. Também havia centenas de milhares de novas unidades em construção, retomada ou contratação.
É um exemplo de política que foi efetivamente retomada, mas cuja dimensão exige continuidade por muitos anos.
O déficit habitacional brasileiro não será resolvido em um único mandato.
6. Novo PAC: retomada dos investimentos
O governo lançou o Novo PAC como uma das principais vitrines de sua política de desenvolvimento.
A proposta envolve obras de infraestrutura, transporte, energia, saneamento, habitação, saúde, educação e prevenção de desastres.
No balanço do biênio 2023-2024, o governo informou mais de R$ 504,5 bilhões executados em obras do Novo PAC.
Mas aqui aparece uma importante ressalva.
Executar orçamento não significa necessariamente concluir uma obra.
Em 2026, uma análise do Tribunal de Contas da União apontou desempenho abaixo do esperado em parte das metas do Novo PAC referentes a 2025.
Portanto, o PAC é uma agenda que precisa ser acompanhada não somente pelo dinheiro anunciado ou empenhado, mas principalmente por quilômetros construídos, casas entregues, hospitais funcionando, escolas concluídas, saneamento chegando às comunidades e obras efetivamente utilizadas pela população.
7. Combate à fome: um dos resultados mais simbólicos
O combate à fome voltou a ocupar espaço central na política federal.
A retomada do Bolsa Família, a valorização do salário mínimo, programas de alimentação e outras políticas sociais contribuíram para a melhora dos indicadores de insegurança alimentar.
Em 2025, o Brasil voltou a ser retirado do chamado Mapa da Fome da FAO, segundo os critérios utilizados pela organização internacional.
É uma conquista importante.
Mas ninguém deveria tratar o problema como definitivamente resolvido.
Fome e pobreza são fenômenos que podem voltar quando há desemprego, inflação de alimentos, crises econômicas ou redução das políticas sociais.
Por isso, combater a fome precisa ser uma política de Estado, e não apenas uma política de governo.
8. Saúde: avanços e uma conta que ainda precisa fechar
O governo ampliou o Mais Médicos, retomou programas de vacinação e ampliou o Farmácia Popular.
No balanço oficial de 2024, o governo informou 26,9 mil profissionais no Mais Médicos e 24,1 milhões de pessoas atendidas pelo Farmácia Popular naquele ano.
Também houve investimentos na reconstrução de políticas de saúde que haviam perdido espaço nos anos anteriores.
Mas a saúde pública continua sendo uma das áreas que mais exigem atenção.
Filas para consultas, exames e cirurgias, falta de profissionais em determinadas regiões, financiamento do SUS e atendimento especializado continuam entre os grandes desafios nacionais.
Ou seja: houve recuperação de políticas, mas ainda existe muito a fazer na ponta do sistema.
9. Educação: Pé-de-Meia, escolas em tempo integral e desafios antigos
O governo criou o Pé-de-Meia, programa destinado a incentivar a permanência de estudantes de baixa renda no ensino médio.
Em 2024, cerca de 4 milhões de estudantes foram beneficiados, segundo o balanço federal.
Também houve expansão do programa Escola em Tempo Integral, que chegou a aproximadamente 1 milhão de matrículas no ciclo 2023/2024.
São medidas voltadas a um problema fundamental: manter o jovem na escola.
Mas educação não se resolve somente com programas de transferência de renda.
O Brasil ainda precisa melhorar alfabetização, aprendizagem, infraestrutura escolar, formação e valorização dos professores, ensino técnico e acesso ao ensino superior.
10. Meio ambiente: uma mudança importante na direção da política ambiental
O governo recolocou o combate ao desmatamento como prioridade.
Os dados oficiais apontaram queda de 30,6% no desmatamento da Amazônia em 2024, a maior redução em 15 anos, segundo o balanço federal. No Cerrado, a redução foi de 25,7%.
Também houve retomada de políticas ambientais e fortalecimento da fiscalização.
É um avanço importante, mas o desafio é manter a redução ao longo do tempo.
O Brasil precisa conciliar preservação ambiental, produção agrícola, geração de empregos, energia e desenvolvimento econômico.
A questão ambiental, portanto, não terminou com a queda do desmatamento: ela apenas entrou em uma nova etapa.
11. Reforma tributária: uma promessa que avançou
Uma das promessas estruturais da campanha era realizar uma reforma tributária.
A reforma sobre o consumo avançou e foi aprovada pelo Congresso, iniciando uma transição que se estenderá por vários anos.
Também houve avanço na promessa de tornar o sistema tributário mais progressivo, com a aprovação da isenção do Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil mensais, medida que passou a valer em 2026.
Aqui é importante fazer uma distinção:
aprovar uma reforma não significa concluir sua implementação.
A transição tributária ainda exigirá regulamentação, adaptação das empresas, estados e municípios e acompanhamento dos efeitos sobre preços, arrecadação e distribuição da carga tributária.
12. O que ficou pelo caminho?
Nem todas as promessas de 2022 chegaram ao mesmo ponto.
Algumas foram cumpridas.
Outras foram parcialmente implementadas.
E algumas continuam dependendo de legislação, negociação política ou execução administrativa.
Entre os temas que permaneceram pendentes ou incompletos aparecem, por exemplo, uma nova legislação trabalhista para novas formas de trabalho e a reorganização da estrutura federal de segurança pública.
Esse é um ponto importante para qualquer balanço sério: governo nenhum consegue transformar todas as promessas em realidade, e promessas que dependem do Congresso não estão inteiramente sob controle do Poder Executivo.
Então, o que foi entregue?
Promessas que avançaram ou foram implementadas
- Retomada e reformulação do Bolsa Família;
- manutenção do benefício mínimo de R$ 600;
- valorização real do salário mínimo;
- retomada do Minha Casa Minha Vida;
- retomada de obras e investimentos por meio do Novo PAC;
- fortalecimento do Mais Médicos;
- ampliação do Farmácia Popular;
- criação do Pé-de-Meia;
- expansão da educação em tempo integral;
- retomada das políticas de combate à fome;
- redução do desmatamento na Amazônia e no Cerrado;
- aprovação da reforma tributária sobre o consumo;
- ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda;
- recuperação dos níveis de emprego.
Promessas e políticas que ainda exigem continuidade
- Conclusão das grandes obras do PAC;
- redução das filas e melhoria da eficiência do SUS;
- melhoria da qualidade da educação;
- redução da informalidade;
- ampliação da produtividade e dos salários;
- solução do déficit habitacional;
- implementação completa da reforma tributária;
- consolidação de uma política nacional para trabalhadores de aplicativos;
- avanço de medidas estruturais na segurança pública;
- manutenção dos avanços ambientais;
- equilíbrio entre despesas públicas, investimentos e responsabilidade fiscal.
O que os números dizem?
Não existe uma única resposta para avaliar um governo. Os números mostram avanços importantes em emprego, renda, programas sociais, habitação, meio ambiente e crescimento econômico.
Ao mesmo tempo, os dados de acompanhamento mostram que nem todas as metas foram atingidas e que algumas políticas ainda estão longe de produzir todo o resultado prometido.
O próprio governo mantém um sistema de acompanhamento do Plano Plurianual 2024-2027, justamente porque muitas das metas são plurianuais e não terminam em um único ano.
O Tribunal de Contas da União, por sua vez, encontrou áreas com desempenho abaixo das metas estabelecidas em 2025, mostrando que execução e entrega continuam sendo pontos que precisam de fiscalização.
É assim que uma democracia deve funcionar: governo apresenta metas, governo entrega, órgãos de controle fiscalizam e a sociedade acompanha.
E daqui para frente?
Talvez essa seja a parte mais importante desta retrospectiva. O Brasil não precisa apenas de governos que anunciem programas.
Precisa de governos que terminem as obras, mantenham aquilo que funciona, corrijam aquilo que não funciona e tenham coragem para mudar aquilo que precisa ser mudado.
O Bolsa Família precisa continuar combatendo a pobreza, mas também precisa caminhar junto com emprego e qualificação. O Minha Casa Minha Vida precisa continuar reduzindo o déficit habitacional.
O PAC precisa transformar investimento em obra entregue. O SUS precisa diminuir filas e melhorar o atendimento. A educação precisa transformar matrícula em aprendizagem.
A economia precisa crescer com aumento de produtividade e renda. A política ambiental precisa preservar os resultados alcançados.
E, as contas públicas precisam permitir que as políticas sociais e os investimentos sejam sustentáveis ao longo do tempo. O Brasil precisa de mais indústrias, gerar mais postos de trabalho trazendo mais investimento e gerando mais divisa para o país que hoje vive em um mundo multilateral, que dialoga e faz negócio sem fronteiras.
Papo reto
Fazer uma retrospectiva do governo Lula não deveria significar transformar política em torcida organizada. Quem é favorável ao governo tem o direito de destacar os avanços.
Quem é contrário tem o direito de apontar os problemas. Mas os números, as metas e os resultados precisam estar acima das paixões políticas.
O balanço dos últimos anos mostra um Brasil que recuperou programas sociais, reduziu o desemprego, retomou investimentos, avançou em políticas ambientais, ampliou programas de saúde e educação e aprovou reformas importantes.
Também mostra um Brasil que ainda enfrenta problemas sérios: saúde, educação, segurança, infraestrutura, produtividade, desigualdade e equilíbrio fiscal continuam exigindo trabalho.
No fim das contas, talvez a pergunta mais importante não seja apenas “o que Lula fez?”
A pergunta que interessa ao cidadão é:
“O que melhorou na minha vida, o que ainda não melhorou e o que precisa continuar sendo feito?”
É essa cobrança que deve permanecer, independentemente de quem esteja sentado na cadeira de presidente.
Porque governo passa. O Brasil fica.
E quem paga a conta, usa os serviços públicos, trabalha, empreende, cria os filhos e enfrenta os problemas do dia a dia é o povo brasileiro. O Nelsão apoia a reeleição do presidente Lula, mas cada brasileira e cada brasileiro tem direito a escolher e é inclusive por isso que o voto é secreto. Temos um projeto em andamento, e do outro lado promessas. Mas cabe a cada um decidir o que é melhor para o Brasil porque o que é melhor para o Brasil está intrinsecamente ligado à vida de cada um de nós.
Papo reto. Sem torcida. Com informação, cobrança e memória. Votemos com sabedoria, porque uma nova chance só daqui a quatro anos. Que Deus abençoe o Brasil e ilumine a escolha de cada um. A luta faz a lei.



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