Quase 2 milhões trabalham por aplicativos no Brasil — e ganham menos por hora
Pesquisa do IBGE mostra jornadas maiores, informalidade elevada e dependência das plataformas. Para o trabalhador, a chamada autonomia ainda está longe de significar liberdade
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| © Paulo Pinto/Agência Brasil |
O trabalho por aplicativos já faz parte da rotina de quase 2 milhões de brasileiros. Motoristas, entregadores e profissionais que oferecem serviços por plataformas digitais somaram 1,959 milhão de trabalhadores em 2025, segundo levantamento do IBGE divulgado nesta sexta-feira (4).
Os números, divulgados em reportagem da Agência Brasil, mostram uma realidade que merece atenção: os trabalhadores de aplicativos têm rendimento mensal praticamente igual ao dos demais trabalhadores do setor privado, mas trabalham mais horas e recebem menos por cada hora trabalhada.
Em 2025, o rendimento médio mensal dos plataformizados foi de R$ 3.147, praticamente o mesmo dos não plataformizados, que receberam R$ 3.148. A diferença aparece quando se olha para a jornada. Quem trabalhava por aplicativos cumpria, em média, 44,7 horas por semana, contra 39,3 horas dos demais trabalhadores.
Na prática, isso significa que o trabalhador de aplicativo recebia R$ 16,20 por hora, enquanto os demais chegavam a R$ 18,40. Uma diferença de 12%.
Autônomo, mas dependente
Outro dado chama atenção. 86,8% dos trabalhadores por aplicativos se declararam por conta própria. O problema é que essa suposta autonomia convive com uma forte dependência das plataformas.
Entre motoristas de aplicativos, 80,2% afirmaram que o valor recebido por cada tarefa depende totalmente da plataforma. Entre os entregadores, o percentual chega a 78,3%. Também são os aplicativos que, em muitos casos, determinam prazos e formas de pagamento.
É uma situação diferente daquela do trabalhador autônomo tradicional. O trabalhador está formalmente por conta própria, mas depende de uma empresa que controla aspectos fundamentais da atividade. E, enquanto isso, assume boa parte dos custos e dos riscos do trabalho.
Informalidade e pouca proteção
A precarização também aparece nos números da Previdência. 72,1% dos trabalhadores por aplicativos estavam na informalidade, contra 42,7% dos demais trabalhadores. Apenas 34% dos plataformizados tinham cobertura previdenciária, enquanto entre os não plataformizados esse índice chegava a 63%.
Isso significa que milhões de pessoas trabalham todos os dias sem a mesma proteção diante de doença, acidente, incapacidade, aposentadoria ou morte.
E há uma razão importante para entender por que tanta gente entra nesse mercado. Entre motoristas e entregadores, o principal motivo apontado pelo IBGE foi não conseguir encontrar outro trabalho. A flexibilidade e a possibilidade de obter uma renda maior também apareceram entre as justificativas.
A tecnologia não pode servir para retirar direitos
O debate sobre a chamada uberização ganhou ainda mais importância justamente neste momento, com a discussão sobre os direitos desses trabalhadores chegando ao Supremo Tribunal Federal.
A tecnologia mudou a maneira de trabalhar, mas não deveria mudar a necessidade de garantir dignidade, proteção social e condições justas para quem vive do próprio trabalho. O desafio é encontrar uma regulamentação que acompanhe a nova realidade sem permitir que a palavra “autonomia” seja usada para esconder relações de dependência e precarização.
São quase 2 milhões de brasileiros que já estão nesse mercado. Eles não podem ser tratados apenas como usuários de uma plataforma. São trabalhadores e precisam ser reconhecidos como tal, com direitos, proteção e respeito.
- Informações da Agência Brasil, com dados da PNAD Contínua/IBGE.

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