Lula volta a Curitiba para comício na Boca Maldita: “É hora de falar com quem trabalha”

Presidente participa de ato no próximo sábado (12), às 10h, no coração de Curitiba; para o movimento sindical, a visita também representa o reencontro de uma história construída entre o metalúrgico do ABC e a luta dos trabalhadores

Lula volta a Curitiba para comício na Boca Maldita: “É hora de falar com quem trabalha”

Curitiba vai voltar a ouvir o nome de Lula nas ruas. No próximo sábado, 12 de setembro, às 10 horas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deverá participar de um comício na Boca Maldita, no centro da capital paranaense. A informação foi confirmada pelo cerimonial da campanha, embora, até o momento da publicação, o compromisso ainda não constasse da agenda oficial da Presidência.

A passagem pela capital faz parte de uma sequência de viagens de campanha prevista para os próximos dias, passando por Juazeiro (CE), São José do Rio Preto (SP), Teresina (PI), Ceilândia (DF), Porto Alegre (RS), Curitiba (PR) e Florianópolis (SC).

E Curitiba não é uma cidade qualquer na história política recente de Lula. É uma cidade que já o recebeu em momentos de vitória, de campanha, de resistência e também nos dias mais difíceis de sua vida política.

Agora, ele retorna para falar de futuro.

A Boca Maldita já conhece esse encontro

Em 2022, a Boca Maldita foi novamente transformada em palco de uma grande mobilização popular durante a campanha presidencial. O ato de Lula e Requião ocupou cerca de nove quarteirões da Rua XV de Novembro e reuniu milhares de pessoas, entre militantes, trabalhadores, movimentos populares, partidos e organizações do campo progressista.

O cenário deste sábado deverá ser diferente em alguns aspectos, mas a simbologia permanece. Lula chega a Curitiba novamente como candidato à Presidência e, desta vez, carregando uma experiência de governo que atravessa três períodos distintos: os dois mandatos consecutivos entre 2003 e 2010 e o atual mandato iniciado em 2023.

Desta vez o candidato ao Governo da Paraná, que sobe ao palanque com o presidente Lula, é o deputado Requião Filho. Também estarão no palanque os candidatos ao Senado pelo partido dos trabalhadores, Gleisi Hoffmann e Doutor Rosinha.

Lula vem a Curitiba diante de uma eleição que começa a ganhar velocidade.

A pesquisa Quaest divulgada em 2 de setembro mostra Lula com 37% das intenções de voto no primeiro turno, contra 30% de Flávio Bolsonaro. Augusto Cury aparece com 10%. No segundo turno, entretanto, a disputa entre Lula e Flávio está tecnicamente empatada: 42% a 41%, dentro da margem de erro de dois pontos percentuais. Contra outros adversários testados, Lula mantém vantagem maior.

Ou seja: a liderança existe, mas a eleição ainda não está decidida.

E talvez seja justamente por isso que a Boca Maldita tenha importância especial.

O comício de Lula e Requião, em 2022

Antes do presidente, veio o sindicalista

Há uma coisa que não pode ser esquecida quando se fala de Lula. Antes de ser presidente da República, ele foi trabalhador. Antes de ocupar o Palácio do Planalto, ocupou uma posição na linha de frente das lutas operárias.

Metalúrgico, torneiro mecânico formado pelo Senai, Lula entrou no movimento sindical no final dos anos 1960. Em 1975, tornou-se presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema, representando cerca de 100 mil trabalhadores. No final daquela década, liderou as grandes greves do ABC que desafiaram a ditadura militar e recolocaram a classe trabalhadora no centro da cena política brasileira.

Em 1979, cerca de 170 mil metalúrgicos participaram de uma paralisação no ABC. A repressão veio forte. Lula foi destituído da direção sindical e posteriormente preso com base na Lei de Segurança Nacional.

Aquele Lula ainda não era presidente.

Era simplesmente um trabalhador que havia descoberto que, quando uma categoria se organiza, ela pode fazer uma fábrica parar — e, quando milhões se organizam, pode ajudar a mudar um país.

Da experiência sindical vieram a fundação do Partido dos Trabalhadores, em 1980, e a participação na construção da Central Única dos Trabalhadores, em 1983.

Butka, Nelsão e Lula: uma ponte entre Curitiba e Brasília

É nessa história que entram nomes conhecidos do movimento sindical paranaense.

Sérgio Butka, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos da Grande Curitiba e da Força Sindical do Paraná, e Nelson Silva de Souza, o Nelsão da Força, vice-presidente das duas entidades, mantêm uma relação política e sindical construída em torno das pautas do trabalho e do diálogo com o governo federal.

Um exemplo concreto ocorreu em janeiro de 2023. Poucos dias depois de assumir o terceiro mandato, Lula recebeu representantes das centrais sindicais em Brasília. Butka e Nelsão participaram do encontro representando a Força Sindical do Paraná.

Na ocasião, o governo anunciou grupos de trabalho para discutir justamente temas que interessam diretamente aos trabalhadores: valorização do salário mínimo, negociação coletiva, fortalecimento da organização sindical e regulamentação do trabalho por aplicativos.

É uma fotografia importante dessa relação.

Não se trata apenas de afinidade política.

É a retomada de uma tradição de diálogo entre o governo federal e o movimento sindical. Uma tradição que havia sido interrompida durante anos e que voltou a ocupar espaço na agenda nacional a partir de 2023.

Em Curitiba, essa relação ganhou também dimensão política. Em 2022, Butka e Nelsão estiveram entre as lideranças sindicais que participaram da construção de uma mobilização classista em defesa de Lula e das pautas dos trabalhadores.

O que mudou na vida do trabalhador nos governos Lula?

Há uma discussão política legítima sobre os governos Lula. Mas existe também uma série de indicadores econômicos e sociais que permitem avaliar concretamente os resultados.

Entre 2003 e 2010, foram criados aproximadamente 15 milhões de empregos, segundo documento oficial do governo federal apresentado ao Congresso Nacional.

O estoque de empregos formais passou de aproximadamente 29,5 milhões em 2003 para 44 milhões em 2010, segundo série baseada na Rais/MTE.

O salário mínimo também teve valorização real expressiva. Entre 2003 e 2010, o salário mínimo real acumulou crescimento de aproximadamente 58,5%, segundo estudo publicado pelo Ministério do Trabalho e Emprego em parceria com o Dieese.

Não é pouca coisa.

Para quem recebe salário mínimo, aposentadoria ou pensão vinculada ao piso nacional, aumento real não é uma estatística abstrata.

É comida.

É remédio.

É passagem de ônibus.

É material escolar.

É a possibilidade de chegar ao fim do mês com alguns reais a mais no bolso.

Bolsa Família e o combate à pobreza

Outro marco foi a criação do Bolsa Família, em 2003. O programa se tornou uma das maiores políticas de transferência de renda do mundo. O Banco Mundial estimou que, entre 2003 e 2009, o programa ajudou aproximadamente 20 milhões de pessoas a sair da pobreza, além de contribuir significativamente para reduzir a desigualdade de renda.

A política social daquele período também foi acompanhada de crescimento do emprego e aumento do salário mínimo.

O resultado foi uma combinação que mudou a vida de milhões: transferência de renda para quem estava em situação de pobreza, aumento do poder de compra dos trabalhadores e expansão do mercado formal.

O índice de Gini — utilizado para medir a concentração de renda — também caiu ao longo daquele período. Dados compilados pelo Ipea mostram a trajetória do indicador saindo de níveis próximos de 0,59 no início dos anos 2000 para cerca de 0,55 ao final da década.

O IBGE também registrou, entre 2000 e 2010, crescimento real de 35,9% no rendimento do trabalho dos 10% com menores remunerações, enquanto o Gini dos rendimentos do trabalho caiu 11% no período.

Educação também entrou na equação

A transformação social daquele período não aconteceu somente pelo emprego. Houve expansão das universidades federais, criação e ampliação dos institutos federais, expansão do acesso ao ensino superior privado por meio do ProUni e ampliação de políticas de permanência e inclusão educacional.

O princípio era simples: a filha do trabalhador também deveria poder chegar à universidade. O filho do operário também deveria ter direito a uma profissão qualificada. A política de cotas e as ações afirmativas aprofundariam essa transformação nos anos seguintes.

E, no atual governo, essa agenda foi novamente ampliada.

Em 2023, Lula criou o Programa Federal de Ações Afirmativas, voltado à promoção de oportunidades para população negra, quilombola e indígena, pessoas com deficiência e mulheres.

Em 2025, o governo também sancionou uma nova lei de cotas no serviço público, ampliando a reserva de vagas de 20% para 30% e incluindo indígenas e quilombolas.

Mulheres, população negra, indígenas e outros grupos historicamente esquecidos

O terceiro mandato de Lula trouxe novamente para dentro da estrutura do governo federal ministérios e políticas específicas para grupos historicamente sub-representados.

A criação do Ministério da Igualdade Racial e do Ministério dos Povos Indígenas marcou essa mudança institucional.

No planejamento federal, mulheres, população negra e quilombola, povos indígenas, crianças e adolescentes passaram a ter agendas transversais específicas acompanhadas no orçamento público.

Em 2026, Lula sancionou ainda um conjunto de medidas de proteção às mulheres, incluindo o monitoramento eletrônico obrigatório de agressores, a tipificação do homicídio vicário como crime hediondo e medidas específicas de proteção às mulheres e meninas indígenas.

São políticas que podem — e devem — ser discutidas, aperfeiçoadas e cobradas.

Mas representam uma diferença fundamental: o Estado passou a reconhecer grupos historicamente vulnerabilizados como destinatários específicos de políticas públicas.

E a fome?

Talvez nenhuma estatística seja tão humana quanto essa. Em 2023, primeiro ano do atual governo Lula, estudo do Instituto Fome Zero apontou que aproximadamente 13 milhões de pessoas deixaram de passar fome e cerca de 20 milhões deixaram a situação de insegurança alimentar moderada. O levantamento estimou redução de 30% na insegurança alimentar total.

O Bolsa Família voltou a ser estruturado com valor mínimo de R$ 600 por família e adicionais vinculados a crianças, adolescentes, gestantes e nutrizes. O programa chegou a atender, em média, mais de 21 milhões de famílias.

E o salário mínimo voltou a ter uma política permanente de valorização, combinando inflação com crescimento real do PIB, conforme estabelecido pela Lei nº 14.663/2023.

Em 2026, o salário mínimo chegou a R$ 1.621, representando novo ganho real. Segundo o governo federal, cerca de 62 milhões de pessoas são beneficiadas direta ou indiretamente pelo piso nacional, entre trabalhadores, aposentados, pensionistas e beneficiários assistenciais.

O Brasil de hoje também apresenta números importantes

O mercado de trabalho atual apresenta uma das marcas mais fortes do terceiro mandato. Segundo o IBGE, a taxa anual de desocupação foi de 5,6% em 2025, a menor da série histórica iniciada em 2012.

A população ocupada chegou a 103 milhões de pessoas, recorde da série histórica, enquanto o nível de ocupação também atingiu sua maior marca desde o início da série.

No desenvolvimento humano, os números também apontam uma trajetória positiva — embora seja importante não atribuir automaticamente todo avanço a um único governo.

O PNUD registrou que o IDHM brasileiro chegou a 0,805 em 2024, pela primeira vez entrando na faixa de muito alto desenvolvimento humano. Entre 2012 e 2024, o índice passou de 0,744 para 0,805.

O próprio PNUD alerta, porém, que desenvolvimento humano não pode ser reduzido a um único indicador. O índice reúne dimensões de educação, longevidade e renda, e não mede sozinho aspectos como democracia, participação social ou sustentabilidade.

Curitiba também faz parte dessa história

Mas existe uma dimensão dessa visita que nenhuma planilha consegue medir. Curitiba foi a cidade onde Lula passou 580 dias preso, entre abril de 2018 e novembro de 2019.

Do lado de fora da Polícia Federal nasceu uma das maiores mobilizações populares da história política recente do país: a Vigília Lula Livre.

Durante aqueles 580 dias, sindicalistas, trabalhadores, estudantes, movimentos populares, militantes, artistas e cidadãos comuns mantiveram uma presença permanente.

Segundo o Museu da Lava Jato, mais de 200 mil pessoas passaram pela Vigília em atos, caravanas, eventos e atividades ao longo do período.

Ali aconteceu de tudo.

Debates.

Celebrações.

Shows.

Atos políticos.

Momentos de silêncio.

Abraços.

Choro.

Solidariedade.

E, todos os dias, a mesma saudação:

“Bom dia, presidente Lula”.

Curitiba se tornou, durante 580 dias, uma espécie de praça permanente de resistência democrática.

Agora Lula volta pela Boca Maldita

É por isso que o comício do próximo sábado, 20 de setembro, tem uma simbologia que vai muito além de uma agenda eleitoral.

Lula volta à cidade onde esteve preso. Volta à cidade onde milhares de pessoas permaneceram durante meses para demonstrar solidariedade. Volta à Boca Maldita, onde já reuniu uma multidão.

E volta encontrando uma parte do movimento sindical que conhece sua trajetória desde muito antes de ele chegar ao Palácio do Planalto.

Butka e Nelsão conhecem a luta sindical paranaense e a porta de fábrica. Lula também, conhece ambas.

É uma história que atravessa gerações do sindicalismo brasileiro: a história de trabalhadores que descobriram que política não é assunto exclusivo de gabinete, que salário não é favor e que direito trabalhista não nasce da bondade de patrão ou governante.

Direito é conquista.

E conquista exige organização.

“Papo reto” com quem trabalha

É justamente aí que está o significado político desta eleição para a classe trabalhadora. Não basta perguntar quem está na frente das pesquisas.

É preciso perguntar o que cada projeto pretende fazer com o emprego, com o salário, com a aposentadoria, com a jornada de trabalho, com a indústria, com a saúde, com a educação e com os direitos sociais.

A experiência dos governos Lula oferece um conjunto de resultados que pode ser avaliado, criticado e comparado. Mas também oferece uma história. A história de um operário que saiu do chão de fábrica, enfrentou a ditadura, ajudou a construir o novo sindicalismo brasileiro e chegou à Presidência da República.

E agora, aos 80 anos, volta à Boca Maldita para pedir novamente o voto dos brasileiros.

No sábado (20), Curitiba poderá ouvir Lula.

Mas, para quem vive do próprio trabalho, talvez seja mais importante perguntar: o que queremos ouvir do próximo governo — e, principalmente, o que queremos cobrar dele?

Porque eleição passa.

O trabalhador continua na fábrica.

Continua no ônibus.

Continua no comércio.

Continua no campo.

Continua no hospital, na escola, no aplicativo, na construção civil e em tantos outros lugares onde o Brasil realmente trabalha.

E é dali, das ruas e das portas de fábrica, que o movimento sindical continuará fazendo a sua parte.

Papo reto. Sem rodeios.

VAI SER UM GRANDE DIA!

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