Estado brasileiro pede desculpas aos metalúrgicos por perseguições da ditadura militar
Comissão de Anistia reconhece oficialmente o Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo e Mogi das Cruzes como vítima da repressão e destaca papel histórico da entidade na resistência democrática
A manhã desta sexta-feira começa com um fato que entra para a história do movimento sindical brasileiro. Mais de 40 anos após o fim da ditadura militar, o Estado brasileiro reconheceu oficialmente as perseguições, prisões, torturas e assassinatos sofridos por trabalhadores e dirigentes sindicais que enfrentaram o regime de exceção entre 1964 e 1985.
Em sessão realizada nesta quinta-feira (2), a Comissão de Anistia do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania declarou o Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo e Mogi das Cruzes como anistiado político coletivo. Durante o julgamento, o Estado brasileiro apresentou um pedido formal de desculpas ao movimento sindical pelas violações cometidas naquele período.
“Em nome do Estado brasileiro, a Comissão pede desculpas a todos os sindicalistas, a todo o movimento sindical brasileiro, por todas as atrocidades que lhes causou o estado ditatorial”, declarou a presidente da Comissão de Anistia, Ana Maria Lima de Oliveira.
Uma luta reconhecida pela história
O reconhecimento tem um peso que vai muito além da burocracia. Trata-se do registro oficial de que um dos maiores sindicatos do país foi alvo de perseguição sistemática por defender direitos trabalhistas, liberdade sindical e a democracia.
Durante a sessão, o relator do processo, Prudente José Silveira Mello, destacou que a repressão aos sindicatos começou antes mesmo da deposição do presidente João Goulart, em 1964. Segundo ele, a ditadura atingiu diretamente trabalhadores, lideranças sindicais e organizações que se opunham ao regime.
Ao longo dos anos de chumbo, dirigentes e militantes foram presos, torturados, demitidos, perseguidos e mortos. Entre as vítimas lembradas durante o julgamento estão Olavo Hanssen, Luiz Hirata, Manoel Fiel Filho, Nelson Pereira de Jesus e Santo Dias, nomes que permanecem ligados à memória da resistência dos trabalhadores brasileiros.
Hanssen, por exemplo, morreu aos 33 anos nas dependências do antigo Dops paulista, em 1970. Como ocorreu com tantas outras vítimas da repressão, a versão oficial da época tentou ocultar as circunstâncias reais da morte.
Empresas também podem ser responsabilizadas
Um dos pontos que mais chamou atenção durante o julgamento foi a manifestação do relator sobre a participação de empresas que colaboraram com a estrutura repressiva da ditadura.
Mello defendeu que, nos casos em que ficar comprovada a colaboração ou o benefício obtido por empresas nacionais ou multinacionais com a perseguição a trabalhadores e sindicalistas, elas também possam ser responsabilizadas financeiramente pelas reparações pagas pelo Estado às vítimas.
Segundo ele, não seria justo que todo o custo das indenizações recaísse exclusivamente sobre a sociedade brasileira caso fique demonstrado que determinados grupos empresariais participaram ou se beneficiaram das violações de direitos humanos ocorridas naquele período.
"Cruel é pouco", relata sindicalista
Durante a sessão, o representante do sindicato, Geraldino dos Santos Silva, emocionou os participantes ao recordar o clima de medo vivido pelos trabalhadores nos anos 1970.
Ele contou que, ao chegar a São Paulo para trabalhar em uma metalúrgica, em 1974, passou a conviver diariamente com a vigilância e a repressão. Distribuir jornais sindicais ou conversar com trabalhadores nas portas das fábricas era suficiente para atrair a atenção dos agentes do antigo Departamento de Ordem Política e Social (Deops).
Segundo Geraldino, muitos dos companheiros perseguidos relataram torturas de extrema violência. Para ele, as marcas deixadas pela repressão acompanharam essas pessoas até o fim da vida.
“Cruel é pouco”, resumiu o sindicalista ao lembrar os relatos dos trabalhadores presos e torturados pela ditadura.
Memória, verdade e democracia
O reconhecimento concedido pela Comissão de Anistia não muda o passado. Mas ajuda a registrar oficialmente uma parte da história que não pode ser esquecida.
Ao pedir desculpas em nome do Estado brasileiro, a comissão reconheceu que milhares de trabalhadores pagaram um preço alto por defender direitos, organização sindical e participação democrática. Também reafirmou a importância da memória histórica para que períodos de autoritarismo e violência institucional nunca mais se repitam.
Para os metalúrgicos de São Paulo e Mogi das Cruzes, a decisão representa uma reparação moral aguardada há décadas. Para o país, é mais uma oportunidade de olhar para sua própria história, reconhecer erros e fortalecer os valores democráticos que custaram tanto esforço e tantas vidas para serem preservados.
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