Quando o discurso encontra a realidade: a responsabilidade sobre as companhias na política

A política é feita de ideias, projetos e escolhas. Mas também é feita pelas pessoas com quem cada liderança decide caminhar. E quando essas escolhas passam a ser alvo de sucessivas operações policiais, é natural que a sociedade comece a fazer perguntas

 
A política é feita de ideias, projetos e escolhas. Mas também é feita pelas pessoas com quem cada liderança decide caminhar. E quando essas escolhas passam a ser alvo de sucessivas operações policiais, é natural que a sociedade comece a fazer perguntas

Nos últimos dias, uma nova fase da Operação Unha e Carne, da Polícia Federal, colocou novamente o Rio de Janeiro no centro das atenções. Entre os alvos da investigação está o ex-prefeito de Belford Roxo, Márcio Canella, nome que vinha sendo apontado como uma das apostas para disputar uma vaga ao Senado nas eleições deste ano, contando com o apoio político do senador Flávio Bolsonaro.

Segundo a Polícia Federal, a investigação apura um sofisticado esquema de lavagem de dinheiro que teria movimentado cerca de R$ 7,6 bilhões ao longo de vários anos. A operação também alcançou outros agentes públicos, empresários e pessoas ligadas ao grupo investigado. As investigações seguem em andamento, e todos os envolvidos têm direito à ampla defesa e ao contraditório.

O fato político, porém, vai além da investigação em si. Mais uma vez, um aliado importante do grupo político liderado por Flávio Bolsonaro passa a enfrentar graves questionamentos por parte das autoridades. Não se trata de afirmar culpa antes do julgamento. Esse não é o papel do jornalismo nem de quem acredita no Estado Democrático de Direito. Mas é impossível ignorar o desgaste político provocado pela repetição desses episódios.

Nas últimas semanas, outras figuras próximas ao campo político bolsonarista do Rio de Janeiro, e, também de outras partes do Brasil, apareceram em investigações conduzidas por órgãos de controle e pela Justiça. Olhando por este prisma, o PL parece não ser exatamente aquilo que vende aos seus apoiadores.

Cada caso possui sua própria história, suas próprias provas e deverá ser julgado individualmente. Ainda assim, a sucessão desses episódios inevitavelmente levanta questionamentos sobre os critérios utilizados para a formação de alianças políticas e escolha de candidatos.

A oposição ao presidente Lula parece estar derretendo neste processo, e pesquisa após pesquisa a campanha de Flávio Bolsonaro, do PL, aparenta estar descendo ladeira abaixo.

Outro tema que ganhou espaço no debate público envolve o empresário Daniel Vorcaro e reportagens recentes sobre o financiamento do filme Dark Horse. Até o momento, não há qualquer acusação formal contra Flávio Bolsonaro relacionada a esse caso. O que existe são fatos públicos sobre contatos e relações políticas e empresariais que vêm sendo noticiados pela imprensa, sem que isso represente, por si só, a prática de qualquer irregularidade.

É justamente por isso que a prudência deve valer para todos. Quem faz oposição tem o direito de criticar. Quem governa deve prestar contas. E quem investiga precisa apresentar provas. Esse é o funcionamento de uma democracia madura.

Pão e Circo

Uma operação do Ministério Público de Santa Catarina investigou um suposto esquema de fraude em licitações para contratação de shows e eventos, tendo como alvos nove prefeitos e ex-prefeitos. O prefeito de Governador Celso Ramos, Marcos Henrique da Silva (PL), foi afastado do cargo por decisão judicial, enquanto o empresário José Clemis Finelli foi preso preventivamente.

A Operação Pão e Circo também cumpriu 50 mandados de busca e apreensão em 18 cidades catarinenses e em Porto Alegre. As investigações apuram ainda pagamento de propina, lavagem de dinheiro e manipulação de licitações para favorecer empresas do setor, com bloqueio judicial de cerca de R$ 9 milhões em bens e valores dos investigados.

Durante anos, lideranças bolsonaristas afirmaram repetidamente que o presidente Lula não seria uma pessoa honesta. Essa narrativa foi utilizada como uma das principais bandeiras do movimento político liderado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro.

Entretanto, a realidade jurídica é objetiva: atualmente, o presidente Lula encontra-se com seus direitos políticos preservados, está elegível e pode disputar normalmente um novo mandato, caso decida concorrer. Da mesma forma, Flávio Bolsonaro também permanece elegível e, até este momento, não é investigado na operação policial que teve Márcio Canella como alvo.

o ex-presidente Jair bolsonaro está preso por tentativa de golpe contra o estado democrático de direito, enquanto o presidente o Lula está governando o país com aprovação de pelo menos metade da população brasileira.

Justamente por isso, cabe uma reflexão que interessa a toda a sociedade, independentemente de ideologia partidária: diante da quantidade de aliados políticos que acabam se tornando alvo de investigações, não seria prudente que qualquer liderança política passasse a adotar critérios ainda mais rigorosos na escolha de seus parceiros?

Na democracia, ninguém deve ser condenado antes do julgamento. Mas também ninguém está acima do legítimo escrutínio da opinião pública. Transparência, coerência e responsabilidade continuam sendo valores indispensáveis para quem pretende representar milhões de brasileiros.

Papo Reto com o Nelsão acredita que combater a corrupção exige coerência. A presunção de inocência deve valer para todos, sem exceções. Da mesma forma, a sociedade tem o direito de cobrar das lideranças políticas responsabilidade pelas alianças que constroem e pelas pessoas que escolhem para caminhar ao seu lado. O que as pessoas não podem continuar a fazer é acusar o Presidente da República enquanto vem seus candidatos envoltos em um mar de lama e corrupção. 

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