Lulinha, Flávio Bolsonaro e a régua que precisa valer para todos
Entre investigações, acusações e disputa eleitoral, a questão central deveria ser uma só: a mesma régua de justiça precisa valer para Lulinha, Flávio Bolsonaro e qualquer cidadão
As investigações que atingem Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, voltaram a ocupar o centro do debate político em plena corrida eleitoral de 2026. E, diante da disputa, talvez seja necessário fazer justamente o que a política brasileira muitas vezes evita: separar investigação de condenação, acusação de prova e responsabilidade individual de responsabilidade por parentesco.
Foi nesse contexto que o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, reagiu às críticas dirigidas ao governo por causa das investigações envolvendo o filho do presidente Lula.
“O filho do Lula, o Fábio, ele tá sendo investigado pela Polícia Federal com autonomia. O presidente disse que a investigação vai acontecer: se ele fez algo errado, que pague. Doa quem doer.”
Essa é uma posição que merece ser examinada pelo seu conteúdo objetivo. Lulinha está, de fato, sendo investigado. Até o momento, entretanto, não há condenação criminal contra ele, nem foi demonstrado publicamente que tenha participado do esquema de fraudes contra aposentados investigado na Operação Sem Desconto.
A própria evolução do caso recomenda cautela. Há suspeitas e elementos que justificaram a abertura de investigações, inclusive relações entre Lulinha e pessoas investigadas. Mas investigação não equivale a culpa. E acusações feitas em palanque eleitoral tampouco substituem uma decisão judicial.
É nesse ponto que a fala de Boulos procura inverter a lógica do debate:
“De um lado, tem quem investiga. Do outro lado, tem quem joga pra baixo do tapete.”
A frase é politicamente forte, mas precisa ser contextualizada.
Durante o governo Jair Bolsonaro, houve uma crise envolvendo a autonomia da Polícia Federal. O então ministro da Justiça, Sergio Moro, acusou Bolsonaro de pressioná-lo pela substituição do superintendente da PF no Rio de Janeiro e posteriormente deixou o governo. O episódio foi objeto de investigação e de decisões do Supremo Tribunal Federal.
Isso é um fato documentado.
Outra coisa, porém, é transformar esse episódio na afirmação de que Bolsonaro comprovadamente interferiu na PF com o objetivo de impedir investigações contra Flávio Bolsonaro. Essa é uma interpretação política que precisa ser apresentada como tal, não como uma conclusão judicial definitiva.
A mesma cautela deve valer para as acusações envolvendo Flávio.
Boulos também questionou o episódio do filme Dark Horse e os recursos obtidos para sua produção:
“Quem tem que se explicar é o seu Flávio Bolsonaro, dos 61 milhões do Dark Horse.”
Nesse caso, existe um fato concreto que merece esclarecimento público: documentos e reportagens apontam que Daniel Vorcaro repassou cerca de R$ 61 milhões para a produção do filme, depois de Flávio Bolsonaro ter solicitado recursos ao então banqueiro. O caso está sob investigação, e Flávio nega irregularidades.
Portanto, assim como não se deve transformar a investigação contra Lulinha em uma condenação antecipada, também não se deve considerar automaticamente encerrada qualquer questão envolvendo o financiamento de Dark Horse apenas porque um dos envolvidos afirma que o assunto está superado.
A mesma régua para todos
É justamente aqui que a discussão deveria chegar. Se Lulinha deve ser investigado, que seja investigado. Se houver prova de crime, que responda por ele. Se não houver prova suficiente, que não seja condenado pela opinião pública.
Mas a mesma regra precisa valer para qualquer político, independentemente de sobrenome, partido ou parentesco.
A frase atribuída por Boulos ao presidente Lula resume uma regra elementar de um Estado democrático:
“Se ele fez algo errado, que pague. Doa quem doer.”
Essa deveria ser uma regra universal, não uma frase conveniente para ser usada somente quando a investigação atinge o adversário.
O debate eleitoral de 2026 já demonstra o risco de transformar investigações policiais em munição eleitoral. Flávio Bolsonaro vem utilizando o caso Lulinha para atacar Lula, enquanto aliados do governo exploram o caso Dark Horse para questionar Flávio.
No meio dessa disputa, existe algo mais importante que qualquer estratégia eleitoral: os fatos. Assim como Lulinha não é culpado porque é filho de Lula. Flávio Bolsonaro não é culpado porque ser filho de Jair Bolsonaro, mesmo que o ex-presidente esteja cumprindo prisão domiciliar em Brasília, por tentativa de abolição violenta do estado de direito.
A régua democrática precisa ser uma só: investigue-se; apresente-se a prova; garanta-se a defesa; e, havendo crime comprovado, que haja responsabilização. Não havendo, que a acusação não seja transformada em condenação política.
Papo reto: essa talvez seja a maneira mais reta de tratar o assunto — sem passar pano para ninguém e sem transformar suspeita em sentença.


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