Papo Reto com o Nelsão: O sindicato nasce na porta da fábrica, não na tela do celular

O trabalhador unido continua sendo a maior força que existe. Nenhum aplicativo substitui a assembleia, nenhum algoritmo substitui a voz da categoria

Papo Reto com o Nelsão: O sindicato nasce na porta da fábrica, não na tela do celular

Vivemos tempos de muita tecnologia, modernidade liquida e instantaneidade. Hoje a informação chega na palma da mão de maneira instantânea. O WhatsApp, aplicativo que está substituindo o antigo telefone, facilita a comunicação. As redes sociais ajudam a compartilhar ideias e divulgar notícias. As transmissões ao vivo aproximam quem está longe.

Tudo isso é importante. Mas vou dizer uma coisa que aprendi depois de muitos anos de chão de fábrica e de movimento sindical: nada disso substitui o trabalhador reunido na porta da fábrica.

É lá que a categoria se encontra para decidir o encaminhamento das demandas de que necessitam negociar com a diretoria da empresa. É na porta da fábrica, durante as assembléias presenciais que cada companheiro e cada companheira tem a oportunidade e o direito de levantar a mão, fazer perguntas, concordar, discordar e votar de forma livre e democrática. É ali que nasce a verdadeira democracia dos trabalhadores. Na porta de fábrica.

Sindicato, sindicalismo não se faz apenas pela internet, redes sociais ou aplicativos de mensagem. Sindicato se faz olhando no olho das pessoas, conversando olho no olho, frente a frente.

O Brasil real não cabe numa tela de celular

Hoje muita gente acredita que um vídeo de um, dois ou três minutos resolve tudo. Parece que alguns políticos esqueceram as ruas, esqueceram as fábricas, esqueceram os bairros e passaram a viver apenas para produzir conteúdo para as redes sociais.

A política virou, muitas vezes, uma disputa de quem aparece mais, enquanto quem acorda de madrugada para trabalhar, ou trabalha durante toda a madrugada para dormir durante o dia, continua enfrentando dificuldades para fechar as contas no fim do mês. E não é só de pagar contas que se vive. A própria Campanha da fraternidade promovida este ano pela igreja católica toca nesse ponto, e independente da religião de cada um, diz que as pessoas precisam ter vida além do trabalho.

O Brasil real, que transforma e produz o futuro dessa nação, está dentro das fábricas. Está nos ônibus lotados, nas filas da entrada de troca de turno. Está na marmita levada para o trabalho, no poder de compra do vale alimentação que dá os sustento para que o trabalhador tenha forças para executar suas tarefas. Está na preocupação de quem precisa pagar aluguel, prestação, criar os filhos, investir em educação, garantir saúde, cultura, esporte e um pouco de lazer para sua família, pois nem só de trabalho vive o ser humano.

É por isso que continuo acreditando no jornal impresso, no informativo físico distribuído na porta da fábrica. Continuo acreditando nas assembléias presenciais. Continuo acreditando na conversa franca entre trabalhadores. Frente a frente, olho no olho. Porque é ali que ninguém fala sozinho com uma tela, simulando a realidade.

Assembleia é democracia operária

Na Volkswagen de São José dos Pinhais surgiram dúvidas entre os trabalhadores sobre uma proposta envolvendo alterações no intervalo de refeição e suas respectivas compensações. E, dúvida de trabalhador, não apenas merece, como exige resposta.

Antes de qualquer decisão, a categoria tem o direito de conhecer todos os detalhes da proposta, compreender seus efeitos e saber quais são seus fundamentos legais. A assembleia, organizada pelo sindicato, existe exatamente para isso.

Como 1º vice-presidente do Sindicato dos Metalúrgicos da Grande Curitiba, participo da Diretoria Executiva da entidade. O Estatuto do sindicato estabelece que cabe à direção representar a categoria, participar das negociações, encaminhar as reivindicações da base e prestar contas aos trabalhadores.

Também encaminhei representação aos órgãos competentes, ao Ministério Público do Trabalho, para que sejam analisados os questionamentos apresentados pelos trabalhadores e para que todo o processo ocorra com a devida transparência, com o devido respeito à legislação trabalhista e preservação dos direitos da categoria.

Direito não é favor

Intervalo para alimentação não é privilégio. É um direito relacionado à saúde e à segurança de quem passa horas na linha de produção. Qualquer alteração precisa ser amplamente debatida, tecnicamente fundamentada e aprovada pela categoria em assembleia presencial.

Negociação coletiva existe para fortalecer o trabalhador, e não para afastá-lo das decisões que impactam diretamente a vida de cada um , de cada uma.

Nada substitui o povo organizado

Ao longo da história, muita gente tentou enfraquecer os sindicatos. Primeiro disseram que o jornal impresso tinha acabado. Depois afirmaram que assembleias eram coisa do passado. Agora acreditam que uma enquete na internet ou um grupo no WhatsApp consegue representar milhares de trabalhadores.

Definitivamente não conseguem!

Os aplicativos de mensagens instantâneas continuam sendo uma excelente ferramenta de comunicação e mobilização. Mas nada disso muda o fato de que continua sendo apenas isso: uma ferramenta. A verdadeira força continua sendo o povo unido.

Foi assim que conquistamos direitos históricos. Foi assim que vieram as férias, o décimo terceiro salário, a PLR, os acordos coletivos, a redução da jornada em diversas categorias e tantas outras conquistas da classe trabalhadora.

Nenhum desses direitos nasceu de um algoritmo. Todos nasceram da organização coletiva. Da reunião dos trabalhadores e dos trabalhadores na porta da fábrica.

Quem produz riqueza merece respeito

As grandes empresas têm papel importante no desenvolvimento do Brasil, gerando empregos e movimentando a economia. Mas também precisam compreender que seu maior patrimônio são as pessoas que todos os dias, após bater o ponto, colocam a linha de produção em andamento.

É justo e óbvio que exista empresa para a empresa. Mas também é justo que exista diálogo, valorização profissional e respeito às leis trabalhistas do Brasil. O desenvolvimento econômico precisa caminhar junto com a valorização da força de trabalho.

A luta continua

Enquanto eu tiver a confiança da categoria, continuarei defendendo o diálogo, a negociação transparente, a distribuição de informativos impressos, a assembleia presencial e o direito de cada trabalhador participar das decisões que afetam diretamente sua vida e de seus familiares.

Porque sindicato não é prédio. Sindicato não é diretoria. Sindicato não é rede social. Sindicato é o trabalhador unido. E, quando os trabalhadores se unem, nenhuma dificuldade é maior do que a força da nossa organização.

Foi na porta da fábrica que começou a história do movimento sindical. E é de lá que continuará saindo a força para construir um Brasil mais justo para quem vive do próprio trabalho.

Fale com o Nelsão: (41) 98411-6970 • WhatsApp

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